Quinta-feira, Dezembro 21, 2006

Novo ano, natal, ano novo...

Mais um ano se passou e chegaram novamente: meu aniversário, natal e ano novo;
E eu me lembrei o quanto essa época me chateia...
É tudo tão falso...uns cumprimentos de fachada, uma alegria falsa, promessas mais falsas ainda...
Tudo isso me cansa...
Foi-se o tempo em que eu gostava que me chamassem de herege por dizer que meu aniversário era alguns dias antes do Natal porque Jesus tinha reclamado com o Pai que eu nascer junto com ele seria uma concorrência desleal (p/ ele)...
mas hoje nem isso...
Nós dois perdemos prum tal de Noel (não o Rosa, mas um progenitor qualquer)...
E nem é por isso meu desânimo, mas foi-se o tempo que essa época significava algo de bom, de importante, pelo menos p/ mim...
Hoje em dia é só comer e dormir...
E assim, vamos seguindo...
por isso, eu fico com Fernando Pessoa...

Aniversário
Alvaro Campos

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,

O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!... (Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,

Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...

Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...

A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
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